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ines(exas)peradamente louca


Há dois anos, me deparei com esse trabalho. Não imaginei que agora eu estaria nele. Dei a mão, numa tarde, num lugar especial pra mim. Assim como a câmera vira uma extensão do nosso corpo durante o ato fotográfico, me senti uma extensão física e psicológica. Naquele turbilhão, entregue, tudo girando sem controle (o meu, pelo menos), a experiência do outro da qual você compartilha e é personagem, sem ser, a sensação de estar entrando por um buraco obscuro da cabeça de alguém. Sensação estranha e potente. Essa foto é uma libertação.

As vertigens da loucura
Texto curatorial por Gabriel Bogosian

ensaio para a loucura / rehearsal to madness from gui mohallem on Vimeo.


O movimento suspende e desordena a narrativa do sujeito: não há rosto, não há roupas, não há traços além de um desordenado borrão de cor, onde a figura se mistura ao fundo, como que por derretimento. O movimento sacode e expõe, ao sublinhá-la ou permitir que seja abandonada, a interseção entre máscara e boa intenção em que vivemos. O movimento exclui o verbo, desestabiliza os termos do sujeito, abre a porta para a irregularidade; o movimento chega de surpresa e nós submergimos nele.


Tudo isso é obtido a partir de uma oferta, de um dos dois lados: o retratado em potencial lê sobre o projeto e se oferece para participar, ou um amigo é convidado. Amigo ou desconhecido, o retratado escolhe um cenário, e nele a foto acontece: gui segura-o pelo braço e começa a girá-lo e a girá-lo, como um lançador de martelo, e a fotografar no caos da rotação.

A firme mecânica que ocorre, bruta, entre os dois corpos (onde um se entrega – se abandona – ao movimento rotatório) faz com que o corpo rode, como as crianças rodam sozinhas em busca da tontura (em busca da instabilidade). Nos metamorfoseamos; imagem já não é nosso retrato: é um fantasma, uma coruja, uma gárgula fundida ao seu cenário – uma pura força cega como os gritos no A Balsa da Medusa; tudo torna-se um desvio, e nos esforçamos para sair do lugar indistinto (e fracassamos necessariamente); chegamos ao caroço da imagem ideal, a nossa imagem, e ela nos diz e não nos diz respeito. É como se o movimento de todas as horas passadas no lugar que escolhemos fossem condensadas, e então o retrato torna-se a molécula da imagem, um ponto mínimo onde o mais fundamental é combinado e reduzido à sua potência, e a força atômica da dor (em melancolia ou perversão) torna-se presente. E cá estamos nós, sem norte ou oriente, jogados como sob uma avalanche, e submersos. E cá estamos nós, perdidos.


Ensaio para a Loucura | Gui Mohallem
MuBE – Sala Burle Marx. Avenida Europa, 218 – São Paulo
Visitação: de 04/09 a 02/10 – terça a domingo, das 10h às 19h
Entrada Gratuita.

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