About

Atividades e notas

Search for content

Não se pode falar do deserto

De Edmond Jabès
(Fragmento)

Não se pode falar do deserto como de uma paisagem, pois ele é, apesar de sua variedade, ausência de paisagem.

Essa ausência concede a ele sua realidade.

Não se pode falar do deserto como de um lugar; pois ele é, também, um não lugar; o não-lugar de um lugar ou o lugar de um não-lugar.

Não se pode pretender que o deserto seja uma distância, porque ele é, ao mesmo tempo, real distância e não-distância absoluta por causa de sua ausência de marcas. Ele tem, como limites, os quatro horizontes, sendo o que os liga e os separa. Ele é sua própria separação onde ele se torna lugar aberto; abertura do lugar.

Não se pode pretender que o deserto seja o vazio, o nada. Não se pode, tampouco, pretender que ele seja o término, uma vez que ele é, igualmente, o começo.

Dois artigos pra passar mal lendo :)

.Rastros na paisagem: a fotografia e a proveniência dos lugares, de Maurício Lissovsky
.Uma poética do deserto: a materialidade do silêncio em Edmond Jabès, de Caio Meira

ines(exas)peradamente louca


Há dois anos, me deparei com esse trabalho. Não imaginei que agora eu estaria nele. Dei a mão, numa tarde, num lugar especial pra mim. Assim como a câmera vira uma extensão do nosso corpo durante o ato fotográfico, me senti uma extensão física e psicológica. Naquele turbilhão, entregue, tudo girando sem controle (o meu, pelo menos), a experiência do outro da qual você compartilha e é personagem, sem ser, a sensação de estar entrando por um buraco obscuro da cabeça de alguém. Sensação estranha e potente. Essa foto é uma libertação.

As vertigens da loucura
Texto curatorial por Gabriel Bogosian

ensaio para a loucura / rehearsal to madness from gui mohallem on Vimeo.


O movimento suspende e desordena a narrativa do sujeito: não há rosto, não há roupas, não há traços além de um desordenado borrão de cor, onde a figura se mistura ao fundo, como que por derretimento. O movimento sacode e expõe, ao sublinhá-la ou permitir que seja abandonada, a interseção entre máscara e boa intenção em que vivemos. O movimento exclui o verbo, desestabiliza os termos do sujeito, abre a porta para a irregularidade; o movimento chega de surpresa e nós submergimos nele.


Tudo isso é obtido a partir de uma oferta, de um dos dois lados: o retratado em potencial lê sobre o projeto e se oferece para participar, ou um amigo é convidado. Amigo ou desconhecido, o retratado escolhe um cenário, e nele a foto acontece: gui segura-o pelo braço e começa a girá-lo e a girá-lo, como um lançador de martelo, e a fotografar no caos da rotação.

A firme mecânica que ocorre, bruta, entre os dois corpos (onde um se entrega – se abandona – ao movimento rotatório) faz com que o corpo rode, como as crianças rodam sozinhas em busca da tontura (em busca da instabilidade). Nos metamorfoseamos; imagem já não é nosso retrato: é um fantasma, uma coruja, uma gárgula fundida ao seu cenário – uma pura força cega como os gritos no A Balsa da Medusa; tudo torna-se um desvio, e nos esforçamos para sair do lugar indistinto (e fracassamos necessariamente); chegamos ao caroço da imagem ideal, a nossa imagem, e ela nos diz e não nos diz respeito. É como se o movimento de todas as horas passadas no lugar que escolhemos fossem condensadas, e então o retrato torna-se a molécula da imagem, um ponto mínimo onde o mais fundamental é combinado e reduzido à sua potência, e a força atômica da dor (em melancolia ou perversão) torna-se presente. E cá estamos nós, sem norte ou oriente, jogados como sob uma avalanche, e submersos. E cá estamos nós, perdidos.


Ensaio para a Loucura | Gui Mohallem
MuBE – Sala Burle Marx. Avenida Europa, 218 – São Paulo
Visitação: de 04/09 a 02/10 – terça a domingo, das 10h às 19h
Entrada Gratuita.

Paisagem na neblina

“Before I saw Angelopoulos’s film, I, who had been brought up without a father, would never have thought that I would discover him in the image of a tree. This last scene of Landscape in the Mist was a revelation for me. It is a unique, one could say ‘Japanese,’ moment, which surprised me, because I had always thought of the Greek tradition as exclusively one of stones, rocks, and gods. I saw in that scene a challenge to every inhibition and authority. This is why I would use Bergman’s words to say that the goal of cinema is to bring the dream back into our life, and thus help us to confront life’s difficulties.”

Dusan Makavajev, aqui.

Dificuldade de dizer. 

Há alguns anos atrás eu me encantei pela atmosfera desse quadro. Eu achei que sim, mas eu não devo ter me esquecido…
Edouard ManetLe Dejeuner sur L’Herbe1863Oil on canvas214 x 269 cm Musee d’Orsay, Paris

Há alguns anos atrás eu me encantei pela atmosfera desse quadro. Eu achei que sim, mas eu não devo ter me esquecido…

Edouard Manet
Le Dejeuner sur L’Herbe
1863
Oil on canvas
214 x 269 cm
Musee d’Orsay, Paris

“Como algo amorfo, vago, sem nenhuma estrutura ou organização. Como uma nuvem. E somente o acontecimento central daquele dia fixou-se, como um relato pormenorizado, lúcido no seu significado e claramente definido. Em contraste com o restante do dia, esse acontecimento aparece como uma árvore em meio à cerração. Impressões isoladas do dia geraram em nós impulsos interiores, evocaram associações; objetos e circunstâncias permaneceram em nossa memória, sem, no entanto, apresentarem contornos claramente definidos, mostrando-se incompletos, aparentemente fortuitos. Será possível transmitir, através de um filme, essas impressões da vida? É evidente que sim.”

do livro Esculpir o tempo, de Andrei Tarkovsky.


Somehow I was in the jungle

“Num amplo espaço, os artistas instalaram um ambiente sonoro inspirado na gravura O sono da razão produz monstros (1799), de Goya, composto de gravações de marchas, canções de ninar, texto falado e composições musicais, assim como de uma trilha de efeitos incidentais. Soando de 98 altofalantes montados em cadeiras, em pedestais e nas paredes e evocando uma revoada de aves, a obra conduz o espectador através de uma narrativa de sonho que revela as qualidades físicas e escultóricas do som” - Release de Inhotim sobre a obra.

Trechos do sonho:

“The first dream describes a horrific sci-fi scene of an auditorium which is transformed into a factory that grinds up cats and babies with blood everywhere, like in a drug-induced nightmare. This is followed by sounds and noises of men at work and then by Janet’s second dream – a scene of tremendous human subjugation and physical and mental torture (“…we pass by a bunch of people walking, all chained up. […] Then somehow we were in the army commander’s headquarters, or something. I think he was the leader of the area, and some guy comes in; he was hanging on to one of the kids who was in the line-up. And he brings him in, sort of dragging him, saying, ‘He decided he’d run for it, but I caught him.’ And you could see that one of the kid’s feet, his foot was all swollen up. His toes were all big and purple; he’s crying and looking at us saying, ‘Please help me, please help me.’ And the leader goes, ‘O.K., you know what to do with runners. You can’t run with only one leg. Take him and cut off his leg. Take him and cut off that bad foot.’ The kid starts screaming and the guy was dragging him away…

…The cawing of crows and seagulls, the sounds of wind, ocean waves, and heavy breathing follow to introduce the atmosphere of Janet’s third dream which begins in a comforting way and then turns sour. In this dream, she describes a small house on a beach which she recognizes as her own. She enters it only to find the shocking presence of a severed leg on a bed (“On the bed there’s a leg sticking out from under the covers. So I go over to the bed and slowly pull back the sheet to see who’s sleeping there. But I jump back because it’s just a leg … there’s no body …with a running shoe and a sock on it. I try to scream and I want to wake up but I can’t scream and I can’t move.”) This is followed by the second song, an operatic surreal piece about a lost leg that is sung by a soprano and a chorus (“Where is my leg, where has it gone?” - Chorus “She’s lost her leg, where has it gone?” “She needs her leg, bring back her leg.” “It was blown off by a bomb.”) The horrific contrast between the tone of this song and its words ends and is followed by guitar music and a soothing and comforting lullaby sung by Janet. Coming from the gramophone horn on the table in the center of the installation, she sings: “Crows did fly / Through the sky /I hear their cries / Strange lullaby / Close your eyes and try to sleep / They wait for me in the middle of the night/ It’s hard to believe it now / But I know it’s going to work out right / Dreams will come / And when they’re done / It won’t be long / Until the dawn …”.)

The Murder of Crows
by Carolyn Christov-Bakargiev
published in “Thyssen-Bornemisza Art Contemporary: The Collection Book”
Para baixar o pdf, aqui.

Mais sobre a obra, aqui.

Algumas árvores, Bachelard e O Espelho.
As ideias finalmente se conectaram na minha cabeça.

As árvores

Foto 1. Robert Smithson – First Upside Down Tree
O João Castilho já andou falando sobre ela, aqui.

Foto 2. Rodrigo Braga - Do Ensaio Desejo Eremita

Foto 3. Myong hoo lee - Tree #1, da série Photography-Act

Foto 4. Breno Rotatori - Do Ensaio Sopro

Foto 5. gui mohallem - Do Ensaio Welcome Home

A foto problemática da Janaína:



Bachelard, em A poética do Espaço

“É pelo espaço, é no espaço que encontramos os belos fósseis de duração concretizados por longas permanências. O inconsciente permanece nos locais.”

“A casa primordial e oniricamente definitiva deve guardar sua penumbra.”
 
“A cabana do eremita, eis uma gravura-princeps! As verdadeiras imagens são gravuras. A imaginação grava-as em nossa memória.”

“A floresta é um estado de alma.”

“A floresta é um antes-de-mim, um antes-de-nós… A floresta reina no antecedente. Em determinado bosque que conheço, meu avô se perdeu. Contaram-me isso, não o esqueci. Foi num outrora em que eu não vivia. Minhas lembranças mais antigas têm cem anos ou pouco mais. Essa é a minha floresta ancestral.”
(!!!)

“No ser, tudo é circuito, tudo é rodeio, retorno, discurso, tudo é rosário de permanências, tudo é refrão de estrofes sem fim.”

Estudo de papel de parede